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Ter, 29 de Junho de 2010 17:16

Evangélicos e política no Brasil contemporâneo

VALDEMAR FIGUEREDO FILHO, Pastor da IB Central em Niterói (RJ)

Estamos num ano eleitoral. Não deveríamos esperar a bola parar na África do Sul para começarmos a falar das eleições gerais no Brasil. Não consigo identificar o motivo, mas é fato que existe um estranho silêncio entre nós batistas quando o tema é a política. Quero propor algumas ideias para estimular o debate sobre a participação política dos evangélicos no Brasil.

Para isto, usarei a delimitação temporal com que Paul Freston trabalha em “Protestantes e política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment” e que o levou a se deparar com as reações à presença das igrejas evangélicas na cena política da Nova República. Ele constatou que os evangélicos figuravam como “novos atores” na “Nova República”. Mas, qual a imagem veiculada dos evangélicos naquele momento de efervescência política? Segundo Freston, esses novos atores figuravam como fanáticos, fisiológicos e fundamentalistas.

O autor citado toma o cuidado de definir os termos. Sabendo o quanto o protestantismo é multifacetado, e o quanto é confuso mobilizar termos amplos como “evangélicos”, “pentecostais” e “denominacionalismo”, dedicou-se a mapear o protestantismo brasileiro em termos das diferentes igrejas que compõem o grupo. A implicação política dessa distinção é que os evangélicos compõem um tipo de mosaico social. Os grupos denominacionais têm posturas eclesiásticas e políticas próprias.

Freston descreve o protestantismo pentecostal. Neste contexto ele se refere a três ondas do pentecostalismo brasileiro. Faz uso da perspectiva histórica. A classificação das igrejas pentecostais obedece ao critério temporal, quando foram implantadas e de que forma se firmaram no Brasil.


Primeira Onda

Segunda Onda

Terceira Onda

Congregação Cristã do Brasil (1910)

Quadrangular (1951)

Universal do Reino de Deus (1977)

Assembléia de Deus (1911)

Brasil Para Cristo (1955)

Internacional da Graça de Deus (1980)


Deus é Amor (1962)


 

O autor em questão apresenta quadros referentes à participação de deputados federais e senadores da legislatura de 1946-1951 à legislatura de 1983-1987 e constata que se tratou de uma presença pluripartidária que cobria um amplo lastro de ideias e pertencimentos sociais. Numericamente, a presença protestante nesse período foi caracterizada como discreta e estável. Porém, houve uma significativa mudança em termos numéricos bem como da trajetória dos deputados e senadores eleitos identificados como protestantes.

A mudança perceptível se deu na legislatura de 1987-1991, quando a representação protestante avançou para 36. Na legislatura anterior, entre senadores e deputados federais que atuaram, o número era de 17 representantes, majoritariamente ligados às igrejas do protestantismo histórico. Freston atribui a mudança significativa do quadro à imersão pentecostal. Ele chama esse processo de “irrupção pentecostal na política”. O fato é que, se antes os pentecostais se mantinham longe da representação política, na legislatura de 1987-1991 lançam candidatos oficiais da igreja. A partir de então, a presença dos protestantes no parlamento deixou de ser discreta, muito menos estável.

A politização pentecostal pode ser lida como a história da politização da Igreja Assembleia de Deus, da Igreja Universal do Reino de Deus e da Igreja do Evangelho Quadrangular. Essas três igrejas assumiram candidaturas oficiais e desenvolveram, cada uma a seu modo, mecanismos de interlocução com a política partidária e eleitoral. Porém, é fundamental perceber em que contexto a “conversão” dessas igrejas à ação política direta se deu: A Assembleia Nacional Constituinte. A ideia força desta tese é de que a Constituinte foi o estopim para a politização pentecostal. Foi justamente a irrupção pentecostal na política que inaugurou novas formas de se chegar ao parlamento tendo nas igrejas evangélicas a base eleitoral. Decorreram deste fato mudanças significativas no campo religioso brasileiro quanto à relação com a política.

Para todos os efeitos, a bancada evangélica não se distinguia pelo fisiologismo ou por um corte ideológico bem definido. Duas subcomissões mereceram atenção especial da bancada heterogênea chamada de evangélica: “Subcomissão da Família, do Menor e do Idoso” e “Subcomissão da Ciência, Tecnologia e Comunicação”. Portanto, ficava justificada para as “bases” a atuação de deputados que hasteavam bandeiras religiosas em pleno parlamento. Merece ser lembrado que na Constituinte a Subcomissão da Família se ocupou de questões como o do aborto, homossexualismo, divórcio e censura.

A leitura da tese de Paul Freston deixa claro que a identidade religiosa foi reclamada a princípio pelos próprios membros da bancada evangélica. Alguns parlamentares evangélicos quiseram compor acordos para aumentar a força política de cada um que ia além das formações partidárias ou perspectivas estaduais. A mídia não teria inaugurado a identidade religiosa das igrejas evangélicas em pleno espaço da constituinte. Tendo se deparado com tal fato jornalístico, a mídia deu um tratamento ao grupo que ia da denúncia ao deboche. Então, a noção de bancada evangélica ganhou um peso pejorativo como fruto do erro político crasso cometido pelos constituintes evangélicos: A indiscrição.

 

Última atualização em Seg, 19 de Julho de 2010 12:54
 

 

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