<<  Setembro 2010  >>
 Se  Te  Qu  Qu  Se  Sá  Do 
    1  2  3  4  5
  6  7  8  9101112
13141516171819
20212223242526
27282930   
Na sua opinião, o voto consciente pode ser um instrumento de promoção do Reino de Deus?
 
Hora de votar: O fato e a versão PDF  | Imprimir |  E-mail
Escrito por Administrator   
Ter, 29 de Junho de 2010 17:16

Hora de votar: O fato e a versão

MACÉIAS NUNES - Pastor da IB do Leme

Eleição chegando daquele notório jeito de vale-tudo e a sentença clássica de Clausewitz - “a guerra é a continuação da política por outros meios” - volta à mente. Invertendo a mão, tem-se a algo do tipo “a política é um tipo de guerra por meios não-militares”. E apelando para um dito popular, o que aparece é o certeiro “em tempo de guerra, mentira como terra”. Não é sem razão, portanto, que sob o fogo cruzado das batalhas eleitorais, a primeira vítima seja exatamente a verdade, mesmo porque a política, mais do que a arte do possível, é a capacidade que têm certas pessoas de convencer o eleitor de que a versão é mais importante do que o fato. Ou então, para ser mais preciso, de transformar em versão auto-favorável tanto o fato que as prejudica quanto os que beneficiam o adversário. No final, para muita gente, a política nada mais é do que uma guerra de versões contrárias aos fatos - e os vencedores são aqueles que conseguem mentir com mais convicção e persistência, na linha do preceito perverso, mas realista, de Goebbels: “Uma mentira repetida muitas vezes, acaba transformando-se em verdade”.

O eleitor precavido não vai logo acreditando na primeira versão que lhe é arremessada. Antes de tudo, ele procura o fato que a produziu. O voto é uma coisa sagrada e seu detentor não deve deixar que seja profanado por um aventureiro qualquer. No geral, a imprensa presta um serviço essencial na luta para se chegar aos fatos. Listas de políticos que votam de um ou outro modo são frequentes nos jornais e em outros veículos. Políticos que aparecem apenas em época de eleição só querem voto, deixando de manter-se disponíveis e de trabalhar pela população após a conquista do mandato. Políticos que responderam, ou respondem, a processos na Justiça precisam ser olhados com extrema cautela, ainda que ninguém de fato deva ser condenado antes de passar por um julgamento justo. O projeto Ficha Limpa é uma tentativa de depurar o processo eleitoral no Brasil e o eleitor tem a obrigação, inclusive cristã, de conhecê-lo bem.

O eleitor consciente não dá crédito nem trânsito à revoada de boatos que costuma aparecer em épocas eleitorais. Coisas do tipo “ouvi dizer” ou “comenta-se” devem ser descartadas de pronto. Reportagens acusatórias com o verbo no futuro do pretérito (“fulano estaria desviando verbas públicas”) não devem ser levadas em conta até que o tempo verbal passe para o presente ou o passado do indicativo. É preciso evitar o jogo de Sambalate: “Entre as nações se ouviu, e Gesem diz...” (Neemias 6.6). Notícias “plantadas” nos meios de comunicação, para o bem ou para o mal, merecem passar por uma filtragem rigorosa antes de serem aceitas como verdadeiras. Nem tudo o que a mídia divulga é verdade.

No Brasil de hoje, apresentam-se várias versões para o fato de que o país cresce economicamente. A primeira é a já corriqueira “nunca antes neste país”, patrocinada pelo partido no poder. Na realidade, já há algumas décadas o país vem crescendo a taxas relativamente boas. Na época do chamado “milagre brasileiro”, sob a ditadura militar, chegou a crescer 10% ao ano. Logo, crescimento econômico já houve “antes neste país”. Outra versão para o crescimento vincula-se a seus efeitos na qualidade de vida da população. Ter muito dinheiro não significa ter educação, saúde, moradia e transporte de qualidade. Quando se considera as condições de vida de uma faixa da população contada aos milhões, o Brasil ainda está longe de ser a potência econômica que uma versão conveniente procura mostrar. E quando se faz propaganda de programas sociais - tipo Bolsa Família - no sentido de que estão alcançando uma fatia sempre crescente da população, isso é um erro estratégico vinculado ao paternalismo. Projetos de ação social existem para que não precisem existir. O que deve crescer é a educação de alto padrão, a qualificação profissional e o emprego digno.

O eleitor deve estar atento também para a guerra de versões a propósito de quem é corrupto ou não no contexto político. Perfeição é uma coisa: O incorruptível Mahatma Gandhi nunca roubou um centavo de ninguém em sua carreira política. Seus muitos compromissos públicos impediram-no, contudo, de dar a devida atenção à criação de seus filhos. O José da Bíblia, puro e inatacável na vida privada, seria hoje acusado de nepotismo, por valer-se de sua posição no Governo para socorrer a família em apuros. Se o eleitor procura a pessoa perfeita, deveria votar em Jesus Cristo, mas sabe-se que ele nunca se candidatou e também nunca autorizou ninguém a usá-lo como cabo eleitoral.

Corrupção é outra coisa: Não só no Brasil, existem aos magotes os que ingressam na política com objetivos bem definidos de enriquecimento com o dinheiro público. Tem gente que dá para ver claramente que enriqueceu roubando e que se eleita ou reeleita roubará ainda mais. Quem lhe confere o mandato torna-se cúmplice. A famosa fórmula cunhada a propósito dos métodos políticos de Adhemar de Barros e seguida por tantos outros - “o rouba mas faz” - é a versão eleitoralmente (quase) correta para o fato de que é impossível fazer política ou administrar bens públicos sem se beneficiar pessoalmente disso. Este fato, contudo, não existe. O fato é que se há quem rouba mas faz, ou quem rouba e não faz, e ainda quem não rouba e não faz, há, felizmente, quem não rouba e faz. A este último é preciso procurar com dedicação. Ele existe, apesar das versões em contrário.

Outra versão em cujas malhas só caem os incautos é a da “herança maldita”. Conta-se que Nikita Kruchev, que substituiu Stálin na União Soviética, disse que todo mandatário que deixa o poder deveria entregar duas cartas fechadas a seu sucessor, a serem abertas nas duas crises iniciais de seu Governo. Na primeira, o conteúdo seria basicamente o seguinte: “Jogue toda a culpa de seus problemas nas costas de seu antecessor”. Na segunda crise, a carta diria: “Sente-se e escreva duas cartas”. Na realidade, não dá para culpar o Governo anterior por tudo. No caso brasileiro o atual Governo herdou do anterior todas as ferramentas que lhe permitem governar em condições de estabilidade econômica. O próprio Fernando Collor deu sua contribuição nesse sentido, estimulando a abertura da economia.

O eleitor precisa estar atento contra o veneno de outra versão fraudulenta: A de que a ascensão pelo voto é sinônimo de democracia. Não basta chegar ao poder pelo voto para tornar-se um democrata. O exemplo clássico é o de Hitler, que depois de tornar-se chanceler do Reich montado num caminhão de votos, mostrou a que viera. No Brasil de hoje, o eleitor que se preocupa com a questão da liberdade democrática não pode abrir mão de princípios como imprensa livre, autonomia real dos poderes, primado da lei e respeito à Constituição, entre outros. Nesse sentido, ele se esforça por confrontar com os fatos uma outra versão corrente, a de que só se pode chamar de ditadura o regime ideologicamente oposto. A política externa do Governo petista é capaz de condenar o que chama de golpe de estado em Honduras e de apoiar um regime opressor e indiscutivelmente ditatorial como o de Cuba. É capaz também de condenar a existência de arsenais nucleares no mundo e de apoiar os aiatolás do Irã que não pensam em outra coisa a não ser a em terem sua própria bomba e que já declararam sua intenção de riscar Israel do mapa.

Embora grande parte do eleitorado brasileiro tenha dificuldade em discernir entre o fato que esclarece e a versão que confunde, acabando por optar por figuras demagógicas calcadas em ideias do tipo “pai dos pobres” ou “protetor dos oprimidos”, aqueles que têm acesso a esse discernimento não podem deixar de agir de maneira compatível. Significa enxergar além dos chavões eleitoreiros que se multiplicam nessa época, procurar informar-se por intermédio de fontes variadas, analisar os fatos disponíveis e votar com o máximo de consciência possível. E orar ao Senhor no sentido de perceber sua vontade no processo. Afinal, só Ele conhece todos os fatos, inclusive os que só vão aparecer depois.

Última atualização ( Qui, 01 de Julho de 2010 16:08 )
 
Copyright © 2010 Portal Batista. Todos os direitos reservados.
Rua Senador Furtado, 56 - Rio de Janeiro - RJ / CEP 20270-020 / (21) 2157-5557